A vida é um eterno risco sem fim. As ações que decidimos tomar e as consequências geradas são riscos que assumimos para evitar erros, perigos e danos a nós mesmos. Aqueles que evitam o risco a todo custo normalmente tendem a ser covardes, pacíficos ou acomodados. Porém, há um pequeno grupo de pessoas que assume grandes riscos para promover rupturas, mudanças e conquistas além do comum, alcançando posições privilegiadas. Esse eterno risco só é superado pela coragem, a primeira das qualidades humanas.
A valentia é uma virtude e, dentre tantas, ela consiste em aceitar, de cabeça erguida, o risco iminente que é a vida. Veja: o que seria de você sem as grandes decisões que tomou ao longo da vida, aquelas escolhas capazes de mudar sua existência para sempre? Como sua vida seria diferente se não tivesse optado por elas? Esses são riscos que aceitamos como forma de superar um objetivo-fim bem definido, promovendo mudanças reais em nossas vidas. Só aceitamos tais riscos quando desejamos mudar, quando percebemos que não há como continuar vivendo da mesma forma e ansiamos por mais. Aqueles que se acomodam experimentarão uma vida sem grandes feitos e, possivelmente, repleta de arrependimentos. Isso vale até mesmo para aqueles que já tiveram coragem de vencer uma vez, mas não desejam mais lutar.
Aquele que arrisca aceita as possíveis consequências, mas o lamento não é o maior perigo do homem, pois homens sofrem, erram e aprendem. Diante de um vasto leque de novas oportunidades que vemos e descobrimos diariamente, saímos de casa enfrentando mais um dia, expostos, aceitando riscos e determinando limites. Sua vida é mais valiosa do que seus sonhos? Sua paz é mais importante do que seus objetivos? É válido arriscar tudo por um sonho? Aqueles que tentaram e falharam ao menos tentaram, e não há vergonha alguma nisso. Os que nunca tentaram já falharam há muito tempo, no instante em que desistiram.
Quem não arrisca experimenta uma vida amarga, morna e distante de sua potencialidade máxima. A vida de um homem estoico e corajoso é repleta de novas experiências, aventuras, sonhos realizados ou não, mas sempre marcada por erros e acertos assimilados, readaptados e moldados pelas cicatrizes que a vida nos impõe. Tornamo-nos mais fortes, mais sagazes e mais audaciosos. Esses homens rompem paradigmas, transcendem e causam rupturas que mudam o mundo. Levam outros a lugares jamais imaginados. São sonhadores que recusam a paz para viver o eterno risco ininterrupto, pois isso é viver, é amar e dar valor às pequenas coisas da vida.
Nossa existência não é mais do que um curto intervalo entre duas extremidades de escuridão ou luz. Diante disso, rogo-lhe: não desperdice o guerreiro que reside dentro de ti. Lute e clame por seus amores e anseios, pois a vida é uma guerra eterna e a paz, apenas temporária.
“A paz é apenas uma trégua, a guerra é eterna” – Tucídides
Possuir maestria em ao menos uma área da vida é um dever essencial de todo homem. Seja ela profissional ou não, um hobby ou uma vocação, carregar conhecimento conquistado por meio de trabalho árduo molda o caráter e fortalece o indivíduo, por tentativa e erro, tornando-o mais firme, determinado e maduro. Os sábios carregam as experiências de seus erros e a serenidade que os jovens, tomados pela impaciência e pelo furor juvenil, ainda não possuem.
Por que limitar essa força? Por que abdicar daquilo que realmente importa para viver uma vida de prazeres fúteis e momentâneos? Por que abrir mão da própria vida em favor do vício? Pode parecer evidente optar pelo caminho correto, mas há uma razão clara para que homens comuns escolham o vício em vez do sonho: o vício oferece uma falsa paz, enquanto o sonho exige o risco eterno, e as pessoas buscam evitá-lo. Isso nos corrompe, desintegra nossa vontade e enfraquece nossa capacidade de superação. Tornamo-nos podados, amordaçados por uma bolha que prefere viver o maior tempo possível em prazer do que buscar a recompensa moral de ser bom em algo, de ser um bom ser humano e, acima de tudo, um homem honrado.
Quando Aquiles confrontou o maior guerreiro da Tessália, Boagrius, para pôr fim à disputa entre reis de seus reinos, assumiu para si o desejo de ser lembrado, de arriscar quando necessário e de provocar as rupturas indispensáveis.
No filme Troia, vemos um garoto entregar a Aquiles uma mensagem sobre a batalha iminente contra Boagrius, revelando seu medo:
“O tessálio que vai lutar com o senhor é o maior homem que já vi. Eu não lutaria com ele.”
Aquiles responde:
“Por isso o seu nome nunca será lembrado.”
Essa cena transmite uma mensagem poderosíssima. Aqueles que recusam o risco da vida revelam, por si mesmos, a desistência de fazer parte de algo maior, de transcender e alcançar um status superior. O garoto recua por medo, desejando apenas preservar a própria vida. Essa omissão não constrói legado, não faz história, não deixa marcas nem cicatrizes, é apenas um eco silencioso.
O sentido se completa quando Aquiles derrota Boagrius com facilidade e o rei da Tessália, derrotado, pergunta:
“Quem é você?”
Aquiles responde com seu nome, e a réplica do rei evidencia o ponto central:
“Lembrarei desse nome.”
A ruptura causada por Aquiles ao aceitar o risco fez com que seu nome se perpetuasse na memória de um rei. Jamais teria sido lembrado se tivesse se acovardado. Sempre haverá um pequeno grupo de homens disposto a romper obstáculos, fortalecer seu nome e solidificá-lo contra a prova do tempo, para que, mesmo após 2500 anos, ele ainda permaneça vivo no senso comum, lembrado exatamente da forma como sempre desejou: como um grande guerreiro.
