“É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher por toda a vida quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música.”
Honoré de Balzac

O homem carrega em si uma missão intrigante. Em certos momentos, deve ser reacionário, defender a moral, suas decisões, abster-se, ser, por vezes, casto, agir conforme o justo e o correto, mesmo que isso signifique recusar mulheres quando comprometido, dar razões para casar e procurar formar uma família, mesmo em tempos contemporâneos, quando nada disso é mais necessário ou estimulado. O jovem de hoje fica indeciso, e tem todas as razões para isso.

Devo ser um conservador ou devo aproveitar o que há de “bom na vida” e curtir os prazeres?

Aqueles que me acompanham desde o começo sabem que passei de uma posição a seu completo oposto, e havia razões de sobra para isso. O homem não se completa sozinho e, embora sejamos autossuficientes em muitas questões, o ser humano é intrinsecamente social e necessita das experiências humanas para encontrar suas razões civilizacionais de existir e seus propósitos. Em tempos passados, casar era uma das etapas essenciais da vida, e hoje não precisamos mais fazê-lo. Não há impedimentos nem desonra em não querer agir conforme os antigos ou seguir tal moralidade. O que antes seria visto como blasfêmia hoje não é nada além de uma opção, uma escolha, uma liberdade. E isso torna tudo mais difícil, pois essa facilidade faz com que as coisas difíceis, e por isso mais valiosas, se tornem desinteressantes para muitos que não querem realizar tal esforço.

Por que dedicar minha vida a uma mulher se posso vivenciar o prazer da conquista quando quiser e diversas vezes? Por que praticar a paciência em um relacionamento de décadas se nada me impede de ir embora e procurar um novo?

Essa pergunta é pertinente, eu admito. Ela faz sentido. Não há mais instituições que regulem isso. Hoje somos mais livres no que diz respeito aos relacionamentos, e a tecnologia vanguardista da nossa geração permitiu um leque quase infinito de opções. Podemos conhecer centenas de pessoas por meio de redes sociais, aplicativos específicos para isso, relacionar-nos com inúmeras mulheres, conquistar, namorar e tudo o mais com quantas forem possíveis. Soma-se a isso a facilidade atual, decorrente da emancipação sexual. As mulheres nunca foram tão acessíveis quanto hoje. Chega-se até a perder o sentido de discutir essas questões, pois qualquer um tem a capacidade de sair com alguma mulher.

Meu foco deixou de ser isso há muitos anos, porque tudo se limitava ao óbvio, algo que todos vocês já sabiam, mas não praticavam. Essa incongruência permitiu um afastamento do homem das práticas ascéticas, disciplinares e essenciais para a formação do caráter masculino. A mudança do arquétipo do Guerreiro Estoico para o homem rico, milionário, cheio de posses e mulheres foi repentina, e formou esse exército de homens omissos, solteiros, festeiros, chegando à casa dos quarenta anos sem um legado físico para deixar ao mundo. Sem um primogênito para chamar de filho e sem uma esposa para ter a tranquilidade de alguém ao seu lado nos momentos difíceis. Essa omissão, essa solidão do homem contemporâneo, mesmo em meio ao luxo e às festividades, não preenche os propósitos que carregamos em nós, profundamente enraizados como seres humanos.

Nunca foi tão impactante para o homem a certeza dos antigos de que aquilo que traz felicidade é a conformidade com a ética, com o ser bom, justo e digno. As consequências disso no nosso cotidiano, a percepção de agir conforme a própria natureza e não contra ela, de não agir segundo os desejos, mas segundo os propósitos, são muito mais profundas do que uma excitação sexual esporádica. Isso orienta de forma contínua e duradoura nossa busca por felicidade, conforto e realização. O que seria do homem sem essa existência conflituosa? A vida é um obstáculo, um exercício contínuo. Ela exige disciplina para que possamos agir conforme o que queremos, viver conforme a natureza e aproveitar o que há de bom na vida.

Família, casamento, filhos e um legado são objetivos difíceis. Não são simples, não são rápidos e, justamente por isso, são valiosos. São recompensadores porque exigem um comprometimento tão intenso que não há espaço para comodismo ou tempo perdido.

Quer chegar aos cinquenta anos com uma casa vazia? Quer chegar aos setenta em um asilo, sem ninguém ao seu lado? Essas indecisões são normais em todo homem e já ocorreram comigo, ocorreram com você ou ainda ocorrerão. Mas há um consenso: a vida não deveria ser vivida em detrimento do sofrimento e da infelicidade. A superação do niilismo sempre foi um objetivo humano, e não precisamos navegar nesse mar se estivermos criando nosso próprio propósito ou seguindo um universal. O equilíbrio necessário entre o que queremos, o que gostamos e o que precisamos fazer para sermos felizes e completos é a chama que nos motiva a continuar, dia após dia.