O ciúme é o mesmo que um vício, em que sabemos que nos faz mal, mas não evitamos senti-lo ou pensar sobre isso.

Se há um assunto específico em que recebo o maior número de mensagens com dúvidas de membros, sem dúvidas, o ciúme é o líder absoluto. E me pergunto: o que fez os homens serem tão ciumentos? Sem sombra de dúvidas, essa mesma indagação poderia ser expressa em relação às mulheres, mas como normalmente meus escritos são focados no público masculino, de qualquer forma, há um ponto superior que tange o ciúme. Parece-me correto afirmar que existe uma incidência maior de ciúmes por parte dos homens, então vou utilizar dessa inferência para estabelecer o restante dos meus pensamentos voltados a essa sensação.

Diante dos vários problemas que existem dentro do ciúme, o pior dos males é a sua necessidade de reciclagem constante. Pois quem sofre com ciúmes não pensa em outra coisa a não ser naquela pessoa por quem sente ciúmes, pois se vê na necessidade de conjecturar sobre o que pode estar acontecendo e, consequentemente, acaba pensando exclusivamente sobre tal problema de forma incansável. Quando começamos a distanciar os pensamentos ruins para outros assuntos, somos acometidos pelo desprazer de sentir mais uma vez essa onda de ciúmes incontrolável que nos persegue. Tal enfermidade cobre todo o nosso corpo, nos frustrando e impedindo de continuar seguindo em frente. Nos entorpece com um senso de injustiça, culpa e arrependimento distorcidos, pois controla nossa narrativa dos acontecimentos, nos cegando e impedindo de analisar a situação de forma racional.

Isso ocorre porque costumamos crer que, apesar das dificuldades, uma hora tudo melhorará, que nossos devaneios sem sentido em algum momento cessarão, que é uma mera condição temporária criada em nossa mente, mas isso acaba surtindo um efeito completamente oposto. É como se houvesse uma necessidade de garantir que esse perigo seja constante, sendo esse perigo o de ter perdido algo seu ou de estar perdendo algo que lhe importa. É a sua mente tocando um alarme de perigo iminente a todo instante, como se estivesse perdendo algo essencial à existência, como uma parte do seu corpo. Embora eu esteja utilizando exemplos que denotam o sentido de posse, quando falamos de ciúmes esse entendimento normalmente fica subtendido, pois não temos posse sobre alguém, mas nossa vontade de ter essa pessoa novamente e não desejar que ela suma, ou de entender que ela esteja com outra pessoa, é como se estivéssemos perdendo algo que era nosso por direito e não é mais.

Essa percepção, no mínimo ofensiva, diga-se de passagem, retrata muito bem uma das várias razões que propiciam o surgimento do ciúme em casais. Se criássemos um espectro sobre relacionamentos, poderíamos colocar em uma ponta casais liberais que permitem relacionamentos casuais fora do foro particular do casal e, do outro lado, um relacionamento em um ambiente opressivo e obsessivo, em que nenhuma das partes possui liberdade para fazer nada. Diante desses dois extremos, aquele que poderia sofrer mais com ciúmes é o relacionamento opressivo. Antes de mais nada, desejo antecipadamente esclarecer que não estou defendendo relacionamentos liberais, mas apenas expondo a base de como relacionamentos podem funcionar. Minhas opiniões particulares serão melhor explicadas no final deste capítulo.

A razão para o casamento liberal estar livre do ciúme, teoricamente, pode ser a simples ausência de preocupação de ambas as partes quanto à possibilidade de seu parceiro estar com outro companheiro. Embora isso possa ocorrer de forma mútua, devo dizer que, assim como a amizade entre homens e mulheres, ao meu ver, não existe de forma totalmente pura, sempre tendendo para um lado da balança que será influenciado pelos desejos do outro. Muito provavelmente esses desejos nunca serão consumados, porque pode ser que não sejam fortes o suficiente a esse ponto, permitindo que exista um convívio sem necessariamente ocorrer alguma tentativa por parte de um dos lados. Ainda assim, sempre existirá o lado que cede ao desejo do parceiro porque não quer perdê-lo.

Isso tem se mostrado comum nos relacionamentos atuais, em que a mulher anseia sair com outros homens e seus parceiros permitem tal comportamento porque não querem perder a mulher que amam. Não preciso expressar que tal homem não deseja que sua mulher esteja com outros homens, mas acaba aceitando por forças maiores que se sobrepõem ao seu orgulho próprio. Nesse caso, o ciúme é velado e controlado, pois ter a certeza de que, em algum momento, sua mulher poderá estar com outro deve ser algo agonizante para aquele que sofre com ciúmes em relação à sua parceira. Deve ser algo inimaginável para muitos. Diante disso, o homem que aceita acaba canalizando essa frustração para si ou simplesmente dá de ombros e aceita sua condição atual. Se ambos são felizes, eu duvido muito, mas não serei complacente com aqueles que escolhem permanecer nessa situação. Se aceitaram, que arquem com as consequências que possam surgir desse tipo de relacionamento.

Já os relacionamentos que seguem o outro lado da moeda tendem a ter um convívio muito mais conflitante. Isso é esperado, pois trata-se de um estado de vigília constante. Aquele que sente ciúmes estará sempre em estado de alerta, alocando esforços mentais para monitorar os passos do parceiro a fim de encontrar alguma irregularidade comportamental, pelo medo de ser substituído ou traído. Embora possa parecer extremo colocar dessa forma, como se estivéssemos falando de uma guerra entre países, o ciúme funciona exatamente assim e é por isso que se torna tão desgastante, tanto para o relacionamento quanto para a pessoa que sofre com ele.

A natureza irritadiça do ciumento está no desgaste mental em que se encontra, ao desperdiçar tanto tempo e pensamento sobre possibilidades ou situações em que se vê sendo traído por sua companheira ou perdendo aquilo que considera seu. O relacionamento passa a ser visto como um símbolo de posse, e o indivíduo se vê como autoridade diante dessa relação. Ainda assim, é válido pensar que, diante dessas condicionantes existentes entre casais, o ciúme funciona como um vício presente em apenas um dos lados do relacionamento. Dificilmente ambos serão igualmente ciumentos. Pode até acontecer que, por existir amor recíproco, haja um ciúme expresso por ambos, às vezes até de forma considerada fofa, mas isso ocorre meramente por reciprocidade de um elemento inicial que dá início a esse comportamento.

Aquele que implanta tal posicionamento na relação é normalmente quem sofrerá mais com o ciúme. Em algum momento do convívio, uma das partes se sentiu incomodada com a ação do outro, dando início a uma tentativa de fazer o parceiro parar com aquilo. Dependendo de como a situação se desenrola, tudo pode ser resolvido de forma pacífica, o que é comum no início de um relacionamento. Nessa fase inicial, tudo costuma funcionar de maneira concisa e morna, em que ambas as partes concordam com quase todas as exigências e não há muitas discussões. O problema surge quando o relacionamento entra em um estágio mais avançado e essa formalidade deixa de existir. A partir daí, aquele que se sente incomodado expressa sua vontade e, se a parceira se sentir insatisfeita ou cansada de suportar esse comportamento, provavelmente expressará o mesmo incômodo por estar sendo constantemente chamada à atenção, e tudo começa a desandar.

Dependendo do resultado dessas desavenças, algo costuma sempre acontecer. O ciumento normalmente entende as reclamações da parceira de forma sincera e passa a se sentir imaturo por tamanha atitude infantil, como ocorre na maioria das vezes. Talvez você já tenha feito isso ou ouvido relatos de pessoas que sentem ciúmes por motivos completamente triviais. Após esse choque de realidade, o ciumento se sente satisfeito por perceber que seus pensamentos não faziam sentido e que seu ciúme era infundado. Porém, isso nunca é suficiente. Mesmo entendendo a posição da parceira e reconhecendo seus erros, o ciúme se comporta como um vírus que se propaga, começando com um pensamento aleatório que cresce e se transforma em verdade na mente. Um novo devaneio surge e todo o ciclo se repete, até que a parceira não aguente mais e termine o relacionamento.

Particularmente, é difícil que o ciúme desapareça por completo de um relacionamento, pois são meses ou anos de convivência e certos costumes não costumam ser esquecidos ou modificados com facilidade. Além disso, isso também está ligado à personalidade de cada um. Existem pessoas mais propensas a senti-lo e outras que praticamente não se importam. Não existe uma fórmula mágica para fazer o ciúme desaparecer, pois ele pode ser um traço da personalidade. Assim como há um ciúme velado e ameno, por vezes considerado até fofo, há também aqueles que destroem relacionamentos e causam mortes por razões torpes, quando a pessoa entra em um estado de frenesi e se afasta completamente da realidade.

A dica que dou para quem sofre com ciúmes, assim como eu sofri na juventude em meus primeiros relacionamentos, é que muitas dessas sensações são fruto da frustração de não se sentir bom o suficiente para a parceira. O indivíduo passa a se menosprezar, sente-se substituível e suscetível ao medo constante de ser abandonado. O irônico é que é exatamente por essa razão que muitos relacionamentos acabam. A mulher, sob pressão, sente a necessidade de terminar o relacionamento porque não aguenta mais lidar com um homem dominado pelo ciúme. Essa fragilidade masculina é um grande demérito que, em geral, não agrada às mulheres. Assim, a imagem positiva construída no início do relacionamento se deteriora com atitudes imaturas, projetando a figura de um homem fraco e descontrolado.

Quando converso com pessoas que enfrentam esses problemas, evito debater os motivos que geraram o ciúme. Além de ser um tema delicado, muitas vezes é improdutivo, pois a pessoa se encontra emocionalmente descontrolada, com uma visão distorcida da realidade. Sem conhecer ambos os lados da história, torna-se difícil avaliar excessos, e por isso prefiro não me intrometer.

Superar o ciúme exige uma prática de coexistência benéfica e de ataraxia, conceito muito trabalhado pelos estoicos. A mente, apesar de ser nossa aliada, nos prega peças quando não é disciplinada. Muitos transtornos compartilham nuances semelhantes, sendo frutos de um mesmo eco interno. A saída não vem de fora, mas do fortalecimento pessoal, que permite racionalizar com clareza e não ser refém das emoções. Muitas vezes, o ciúme é fruto de ilusões criadas pela própria mente, cenários imaginários que poluem nossos pensamentos. Isso não significa que todo ciúme seja exagero, pois há situações reais que o provocam. O ponto não é justificá-lo, mas entender sua origem.

O ciúme é um descontrole pessoal, uma sensação de perda. Não precisamos dele para nos orientar em um mundo socializado. Ele é um mecanismo primitivo de defesa, presente até mesmo em primatas. A diferença entre o macaco e o homem não deveria ser apenas biológica, mas mental. Agir movido pelo ciúme é agir como um primata despreparado emocionalmente. Falo disso com propriedade, pois já fui refém do ciúme e estraguei relacionamentos por conta disso.

Homens são frequentemente abandonados por serem sufocantes e ciumentos. Isso precisa ser abandonado. Se algo incomoda no comportamento da parceira, o diálogo deve existir. Se não houver acordo, cabe decidir se vale a pena continuar. A ausência de paixões nas decisões cria clareza e equilíbrio. Sentir emoções não é errado, mas ser dominado por elas é.

Uma mente sadia compreende sua situação e ainda assim vive em harmonia. Problemas existem, mas não devem nos governar. Quando aprendemos a não permitir que o externo nos controle, ganhamos força. A disciplina é essencial em qualquer relação. O ciúme sinaliza um problema que deve ser observado de fora, sem vieses emocionais.

O que nos move não é o amor, mas a segurança. Quando ela falha, surge o ciúme. Amar a si mesmo é o primeiro passo para amar corretamente o outro. O amor, por si só, não vence batalhas. Emoções controladas, aliadas à razão e à justiça, protegem e fortalecem. Um homem equilibrado pondera palavras, entende limites e não se deixa dominar pelo externo.

Por fim, o jovem é naturalmente confuso e moldável. Em tempos de excesso de informação, a verdade se perde. O correto muitas vezes parece antigo, mas permanece válido. Nem tudo que é novo é certo, e nem tudo que é velho é ultrapassado.