Poderia-se dizer que não apenas relacionamentos amorosos, mas qualquer relacionamento humano funciona, em algum grau, como um sistema de trocas. Embora não desejemos nada materialmente em troca de forma explícita, ainda esperamos algo em retorno por estarmos sociabilizando com alguém. Isso está longe de ser algo puramente egoísta, pois sua explicação transcende uma mera convenção cultural da contemporaneidade. Parte de uma vontade inerente de continuarmos instigados em uma conversa. Seja com um amigo, uma mulher ou a família, o que acaba alimentando a vontade de dialogar é a troca de informações, úteis ou não.
“Por que perder tempo aqui parado se posso passar o tempo conversando com alguém?”
Principalmente quando estamos em filas, acabamos por ventura dialogando com alguém que esteja ao nosso lado. Mesmo que sejam breves palavras, mesmo que não as queiramos dizer, acabamos, por vezes, dialogando com pessoas. O homem é um ser social e age sempre em razão dessa função básica da humanidade. Funciona como uma vontade de sociabilizar com outrem, por querer exercer sua existência entre iguais. Isso não funciona de forma diferente nos relacionamentos amorosos, que exercem poder quando estamos na fase de conhecer a possível futura esposa. Isso ocorre quando pensamos no que falaremos para passar a melhor imagem possível de nós mesmos para o outro, com o único objetivo de instigá-la a querer continuar conversando conosco. Assim, o nervosismo que um primeiro encontro gera é semelhante ao que uma entrevista de emprego gera. Queremos impressionar, queremos mostrar nosso valor, queremos dizer “eu sou bom, eu valho a pena”, e consequentemente queremos que as pessoas ao nosso redor também acreditem nisso.
A sociabilidade, através de nossos instintos civilizacionais, importa para a vida cotidiana a fim de gerar harmonia social. Já para aqueles que nos perturbam e enchem nossa paciência, costumamos dizer qualquer coisa que passe pela nossa mente, pois não nos importamos com o que ouvirão, visto que naturalmente não vale a pena dedicar atenção ao que não nos instiga. Não preciso dizer o quão colossal é esse erro, mas ele acaba ocorrendo de forma natural. Como adeptos do laconismo, o homem de poucas palavras transforma isso em um estilo de vida, e quando fala, tem certeza do que deseja expressar. Isso é um requisito essencial para evitar problemas posteriores.
Antigamente, eu era um ferrenho dialogador, e não por ser imune à timidez, muito pelo contrário. Falava justamente por ter sido tímido, tentando disfarçar isso e evitar silêncios constrangedores. Diante disso, era natural acabar dizendo o que não devia, pois não pensava no que falava, apenas queria dizer algo. Quando precisava pensar no que dizer, travava e não conseguia me expressar bem. Curiosamente, sempre tive aptidão para apresentações e para entreter o público. Em meus tempos de escola e faculdade, minhas apresentações eram completas e elogiadas. Com antecedência e tempo para preparar as falas, tais conquistas sociais eram possíveis. Entretanto, na vida real, no cotidiano, em diálogos que precisavam ser definidos na hora, eu me desesperava e falava demais ou travava no que iria dizer.
Quando comparamos um discurso com conversas do cotidiano, o tempo é a maior diferença entre ambos. Não abordarei aqui o nível de polidez das palavras, pois isso é consequência direta do tempo. Em um discurso, há tempo para definir palavras e memorizá-las. Em uma conversa casual, não. É preciso exprimir ideias da forma mais rápida e simples possível. Todas as línguas do mundo tendem à simplificação ao longo das eras. Resumimos palavras, modificamos sons e facilitamos a comunicação. Pessoas que travam ou gaguejam ao dialogar cometem um erro semelhante ao de quem memoriza discursos: tentam definir antecipadamente as palavras que usarão. Isso não é possível em segundos, e o resultado costuma ser desastroso. Por isso, não aconselho preparar roteiros de palavras ao planejar conversar com alguém.
Vamos exemplificar. Suponha que você deseje conhecer uma mulher específica e perceba que finalmente terá essa oportunidade. É natural tentar construir uma narrativa favorável, criando a expectativa de que tudo conspirará a seu favor. Porém, quando o momento chega, as coisas não ocorrem como esperado, e a conversa que poderia iniciar uma grande história de amor se torna apenas um diálogo rápido, verborrágico e exagerado. As consequências são desastrosas e podem minar sua imagem. O que digo aqui se aplica a praticamente tudo, mas foquemos na sociabilidade, que é o objetivo desta obra.
As pessoas são imprevisíveis. A mente humana, apesar de seguir padrões, não reage como um robô a uma mesma situação. Tentar controlar o que não pode ser controlado é um erro fatal. Isso gera constrangimento e frustração. Proponho, portanto, que o momento defina as palavras. Isso se alcança não pensando excessivamente no que será dito, embora a discrição seja necessária. Não defendo dizer qualquer coisa sem considerar o ambiente ou a pessoa, mas sim evitar criar cronogramas irreais de acontecimentos. Resultados podem ser projetados, mas o percurso depende muito mais de acaso, destino e aleatoriedade do que de diálogos pré-definidos na mente. Não seria prepotência esperar que o universo aja conforme seus anseios?
No passado, permiti que o externo me controlasse. A vontade de falar para evitar o silêncio era um erro recorrente. Eu falava com quem desejava instigar, com quem não queria falar, com quem não tinha paciência, com qualquer um. Era um homem de muitas palavras. Como um vício, minha tentativa de evitar situações embaraçosas ficava evidente, sem perceber que eu mesmo as criava. Hoje, limito minhas palavras não como uma disciplina rígida, mas como um estilo de vida. Levo comigo a máxima: “Você tem dois ouvidos e uma boca; use-os nesta proporção”. Isso não significa parecer estranho ou silencioso demais. O laconismo extremo é apenas uma ferramenta para buscar equilíbrio. Existem momentos em que a sociabilidade e o carisma são necessários. Saber quando falar diferencia aqueles que falam muito e pouco fazem.
Escutar mais e falar menos é, a meu ver, uma fórmula de sucesso. Ouvir pensando apenas em como responder impede a assimilação das informações. Isso resulta em conclusões equivocadas. Ouvir é acumular informações, e informações são sempre úteis. Mesmo que não controlemos o ambiente, somos seres sociais e nos adaptamos a ele.
Aquele que permanece calado demais acaba se perdendo em seus pensamentos e perde informações importantes. Em ambientes sociais, isso pode gerar constrangimentos. Apesar de exaltar o laconismo, a discrição e um nível básico de carisma são essenciais.
O que se busca é equilíbrio entre falar, ouvir e reagir ao externo. O medo de errar leva muitas pessoas ao erro. Sob pressão, tentamos reafirmar conhecimentos já adquiridos, mas isso bloqueia a ação instintiva. Um jogador de futebol não esquece como chutar uma bola em uma cobrança de pênalti decisiva. Ele apenas passa a pensar demais no que antes fazia naturalmente. O mesmo ocorre com a fala. Quando analisamos excessivamente algo que já dominamos, perdemos sua naturalidade.
Uma vida disciplinada não é sinônimo de monotonia, mas de preparo, estratégia e ordem. Ser disciplinado é conhecer limites e fraquezas. O disciplinado age sem medo porque está preparado. Enxerga o mundo de forma mais calculada e cria uma barreira natural contra problemas pessoais. Desilusões amorosas ou profissionais não o afetam da mesma forma. Identifica falhas com antecedência e age antes que seja tarde. Disciplina é uma filosofia de autoaperfeiçoamento, ligada à busca da excelência. É encontrar maneiras melhores de agir no cotidiano e se acostumar com a busca incessante pela perfeição.
