Quem se propõe a estudar estoicismo inevitavelmente passa por fóruns e grupos de estudo, nacionais ou estrangeiros. E invariavelmente se depara com duas distorções recorrentes.

A primeira é composta por progressistas que não compreendem absolutamente nada do que estão lendo e reduzem o estoicismo a uma espécie de pacifismo hippie, uma filosofia de fuga, contemplação da natureza e anestesia moral.

A segunda é formada pelos mesmos progressistas tentando conciliar ideias modernas com a mentalidade estoica. Democracia, liberalismo, igualitarismo, tudo é forçado para dentro de uma filosofia que jamais foi pensada para isso. O resultado é sempre o mesmo: fracasso intelectual.

Antes de qualquer coisa, é preciso fazer uma pergunta básica: o que é um povo? Um povo é um coletivo de indivíduos. E indivíduos são, em sua maioria, governados por impulsos, paixões e emoções. Negar isso não é virtude moral, é ingenuidade ideológica.

A frase “as pessoas são naturalmente lideradas por suas emoções” carrega pressupostos profundamente aristocráticos e radicalmente antidemocráticos. E isso não é um defeito do estoicismo, é uma de suas bases. O problema é que esse aspecto foi deliberadamente ignorado quando o estoicismo foi transformado em produto. Uma mercadoria intelectual de consumo rápido. “Seja estoico em cinco passos.” “Como aplicar o estoicismo no trabalho.” “Estoicismo para uma vida leve.” Tudo isso não passa de vulgarização.

O estoicismo nunca existiu fora dos sistemas sociopolíticos de sua época. Ele foi formulado dentro de sociedades hierárquicas, aristocráticas e profundamente desiguais. Era uma filosofia voltada às classes dominantes. Plebeus podiam aderir a ela, mas não com o mesmo propósito. Quando os estoicos falavam sobre o “motivo para governar”, falavam literalmente de governantes. Reis. Magistrados. Homens responsáveis por impor ordem sobre massas incapazes de se autogovernar.

Não há ironia aqui. A ética estoica pressupõe autoridade, comando e hierarquia.

O estoicismo nasce de uma linhagem clara: pitagorismo, platonismo e cinismo. Seus valores dialogam diretamente com Esparta, com Licurgo, com a Pérsia de Ciro. Trata-se de uma tradição aristocrática de pensamento. Os estoicos viam a maioria das pessoas como uma multidão passional, hedonista e instável. Eles próprios se viam como poucos, como reis-filósofos, responsáveis por representar a lei, a razão e a ordem contra a desordem, o excesso e a decadência moral.

Isso leva a uma conclusão simples e frequentemente evitada: os estoicos eram opositores naturais da democracia. O demos representa a emoção. O logos representa o filósofo. A filosofia estoica é, essencialmente, a razão governando o que é inferior. Moralmente e politicamente.

As emoções são tratadas como fraqueza. Não porque sentir seja um pecado, mas porque ser governado por emoções é sinal de ignorância. O prazer, em si, não é condenado. O erro está em julgá-lo como um bem. Para os estoicos, o prazer é indiferente. O que importa é o domínio racional sobre ele.

Quem constrói um “estoicismo moderno” baseado em conforto emocional, validação pessoal e adaptação social está edificando sobre areia. E não há qualquer obrigação de agradar essas pessoas.

Basta observar o que ensina Epicteto. Ele não falava às massas. Falava à elite romana. Ensinava jovens que seriam magistrados, administradores e senhores. Ele os advertia de que eram responsáveis pelas escolhas que moldariam o mundo ao seu redor. Se delegassem essa responsabilidade à multidão impulsiva, sofreriam as consequências.

O fato de Epicteto ter sido escravo não invalida isso. Pelo contrário, reforça. No mundo greco-romano não existiam direitos humanos, nem igualdade moral entre os homens. Esse paradigma jamais foi seriamente questionado. Homero, Platão e Aristóteles operavam dentro dessa lógica. Havia os que governavam e os que eram governados.

Epicteto jamais escreveu sobre política institucional, leis ou história. Não por ignorância, mas por posição. Esses temas pertenciam aos mestres. Como servo, ele se dedicava à filosofia e à retórica, áreas que não exigiam poder material, apenas disciplina intelectual. Sua obra não é democrática, é normativa. Não busca igualdade, busca ordem interior e domínio racional.

O estoicismo, portanto, não é uma filosofia de conforto. É uma filosofia de comando. De autodomínio. De hierarquia interna e externa. Qualquer tentativa de reduzi-lo a autoajuda, pacifismo ou ideologia moderna é, no mínimo, desonesta.

E não há motivo algum para pedir desculpas por dizer isso.